Quem decide investir no mercado de ações pode adotar diferentes técnicas para orientar suas decisões de compra e venda. Uma das principais delas é a análise fundamentalista. Ela consiste, como o nome indica, na análise dos fundamentos da empresa que emite a ação, incluindo sua situação financeira, sua posição no mercado e como ela está sendo (ou poderá ser) afetada pelo cenário social, político e econômico.
Fazer uma análise fundamentalista é um processo trabalhoso por englobar tantos aspectos, privilegiando uma visão macro da empresa e de suas ações. No entanto, quem adota essa técnica pode obter bons resultados, já que consegue avaliar com assertividade a saúde do negócio e as tendências de valorização ou desvalorização dos papéis que ela emite.
Neste artigo, vamos explorar mais a fundo o que é a análise fundamentalista e como ela pode ser aplicada na prática. Confira!
Entendendo a análise fundamentalista
O principal precursor da análise fundamentalista foi Benjamin Graham. Um de seus discípulos mais conhecidos, que levou a técnica adiante, é Warren Buffett. Eles defendem a análise geral do desempenho da empresa e do contexto no qual ela está inserida para identificar seu potencial de valorização.
Tipicamente, a análise fundamentalista é uma técnica preferida pelos investidores que adotam o estilo buy-and-hold; isto é, aqueles que investem em ações com a intenção de mantê-las na carteira e ganhar com a sua valorização ao longo do tempo, não de vendê-las em seguida para lucrar imediatamente.
O motivo é que essa técnica utiliza muitas informações que indicam tendências de desempenho em longo prazo. Enquanto isso, para os investidores que atuam mais focados no trading, o que interessa são os indicadores de curto prazo.
Análise fundamentalista vs. Análise técnica
Uma maneira mais simples de entender a análise fundamentalista é por meio da comparação com outra, a análise técnica.
A análise técnica consiste em identificar e analisar tendências estatísticas extraídas das próprias atividades de trading, como variações no preço das ações e volume de negociações.
Por exemplo, um trader observa que existe uma tendência histórica de que o preço de determinada ação aumente em certo período do ano. Então, ele pode tomar a decisão de compra para adquirir o papel logo antes desse período começar, e vendê-lo quando o preço atingir aquele que, também de acordo com as tendências, seria o seu pico. Assim, ele lucra com a venda durante uma alta temporária.
Enquanto isso, a análise fundamentalista não olha para preço ou volume de negociação, nem se interessa muito pelo desempenho passado de uma ação na bolsa. O que ela observa são as bases do negócio da empresa que emite aquela ação, tentando determinar seu valor intrínseco.
O pressuposto básico de quem adota a análise fundamentalista é comprar ações cujo preço não reflete todo o potencial do seu valor intrínseco. Um bom exemplo é o caso da Magazine Luiza. Alguns anos atrás, a empresa era considerada um fracasso e o preço das ações estavam muito baixos. Entre o seu IPO, em 2011, e o ano de 2013, elas sofreram 55% de desvalorização.
Porém, alguns investidores observaram os movimentos de reestruturação do negócio, assim como a situação do mercado e da economia, e perceberam que a MagaLu tinha potencial para um valor intrínseco muito alto. Então, compraram os papéis, apesar de não haver nenhuma tendência estatística de valorização.
O fato é que, anos depois, essas ações se valorizaram mais de 1000%. Então, esses investidores lucraram muito ao apostar em valor intrínseco, em vez de tendências de preço.
Isso não significa que a análise técnica seja menos recomendada do que a fundamentalista. A questão é que elas são mais adequadas em situações e propósitos diferentes.
Um trader não está interessado em esperar anos até que uma empresa deslanche para lucrar, ele busca resultados de curto prazo com a compra e venda. Enquanto isso, o investidor buy-and-hold está mais interessado em construir uma carteira com a possibilidade de aumentar de valor organicamente com o tempo.
Como é feita a análise fundamentalista?
Agora que você já entendeu melhor o que é a análise fundamentalista e como ela difere da análise técnica, vamos explorar como ela é feita na prática.
Tenha em mente que o nosso foco é na aplicação desse método para tomar decisões de compra e venda de ações. Porém, ela pode ser útil para diversos outros tipos de ativos, de bonds a derivativos, incluindo os instrumentos de dívida emitidos pelo Governo.
Um investidor que adota a análise fundamentalista, de maneira geral, deve observar as seguintes informações:
- faturamento;
- receita;
- margem de lucro;
- retorno sobre investimento dos projetos;
- previsão de crescimento;
- competidores e fatores de risco próprios do segmento;
- questões políticas e econômicas mais amplas que podem afetar o segmento.
Como é possível perceber, é preciso olhar bastante para dentro da empresa, mas também para fora dela.
Um bom exemplo é o caso recente da epidemia de coronavírus. Uma empresa que depende fortemente de fornecedores chineses inevitavelmente será afetada pela situação da saúde pública no leste asiático. Essa questão sequer é diretamente ligada à economia, mesmo assim, deve ser considerada para decidir se é o momento certo de investir naquela ação.
Quer outro exemplo? Frequentemente, o Governo concede benefícios para setores da economia, a fim de levar adiante itens da sua própria agenda. Ao fazer isso, ele incentiva o crescimento das empresas que atuam nos setores beneficiados e, portanto, amplia seu potencial valor intrínseco. Um investidor que realiza análise fundamentalista pode enxergar essa situação como a oportunidade de investir nas ações de tais empresas.
E, como visto antes, a partir de todas essas informações o investidor conclui qual é a relação entre preço e valor intrínseco. Se o preço é inferior ao valor intrínseco, é o momento de comprar, pois a ação deverá se valorizar em médio e longo prazo. Por outro lado, se o preço for superior ao valor intrínseco, é o momento de vender.
Fatores fundamentais quantitativos e qualitativos
Logo você perceberá que, na análise fundamentalista, nem todos os fatores observados podem ser expressos em números duros. Por isso, dizemos que existem duas categorias de fatores fundamentais: quantitativos e qualitativos.
Os fatores qualitativos podem ser menos precisos, mas eles não são necessariamente menos confiáveis.
Imagine, por exemplo, que você descobrisse que Bill Gates, fundador e ex-CEO da Microsoft, assumiria a gestão de uma empresa de TI. Você não pode expressar em números o que isso representa para o desempenho dessa empresa, mas é claramente um bom sinal, considerando que Bill Gates tem muita experiência e significativos sucessos como empresário e gestor.
Então, essa informação poderia ser um fator qualitativo a ser considerado, na hora de decidir investir nessa empresa.
Alguns exemplos de fatores qualitativos incluem a qualidade do time de gestão, o modelo de negócios, a vantagem competitiva e a governança corporativa.
Já os fatores quantitativos são mais fáceis de identificar. Podemos citar, por exemplo, a receita, o faturamento, os custos e todas as outras informações que aparecem nos relatórios financeiros e contábeis. Também entram na categoria quantitativa outras informações que não aparecem nesses relatórios, como o tamanho da base de leads e clientes, e a capacidade produtiva mensal ou anual.
Análise fundamentalista e análise de riscos
Como já vimos, a análise fundamentalista costuma ser adotada por quem prioriza uma estratégia de investimento voltada ao longo prazo. E, se você tem a intenção de manter uma ação na sua carteira durante anos, você precisa considerar os riscos que afetam a empresa emissora.
Uma empresa que entra no mercado com um produto extremamente inovador, por exemplo, corre o risco de não ter aceitação dos consumidores, ou de não conseguir se adequar às regulações estatais. Então, sem a análise de riscos, você pode acabar apostando alto nas ações dessa empresa para vê-la quebrar alguns meses depois.
Isso não significa que o investidor só deve apostar em empresas de baixo risco. Até porque a regra básica do mercado financeiro é que, quanto maior o risco, maior o potencial de retorno. No entanto, você precisa estar ciente dos riscos. Desta maneira, será possível adotar a estratégia mais inteligente, de modo que esses riscos não destruam o patrimônio que você está tentando construir.
Como fazer a análise de riscos? Da mesma forma que é feita a análise fundamentalista: olhando para a empresa, para o mercado e para a economia. Então, reflita: quais são as situações mais perigosas a que esse negócio está exposto?
Um caso bem interessante é o do Uber. A empresa tem grande promessa, deu muito certo entre os consumidores, expandiu-se rapidamente. No entanto, em muitos lugares, ela bateu de frente com problemas graves, como regulamentações locais que visam garantir a segurança no transporte de passageiros. Esse é um risco, e todo investidor deveria estar ciente dele antes de fazer a aplicação de capital na empresa.
Agora, você já sabe quais são os principais aspectos da análise fundamentalista. Mas é claro que essa é apenas a ponta do iceberg. Quem quer começar a investir, seja na vida pessoal ou como profissão, precisa se aprofundar ainda mais nesse assunto.
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