O setor varejista brasileiro sempre foi um dos pilares da economia nacional, empregando milhões de pessoas e contribuindo significativamente para o PIB do país. No entanto, nos últimos anos, o cenário econômico, agravado por crises externas e internas, tem pressionado fortemente as margens de lucro das empresas do setor, levando a um aumento expressivo do endividamento.
Este texto explora as causas, o contexto e as consequências desse endividamento crescente, além de apresentar alguns números que ilustram a situação atual.
Contextualização: O Ambiente Econômico e o Setor Varejista
Nos últimos anos, o Brasil enfrentou uma série de desafios econômicos que afetaram diretamente o setor varejista. A crise econômica que se seguiu à recessão de 2015-2016, os impactos da pandemia de COVID-19 e, mais recentemente, a inflação global e a instabilidade política têm criado um ambiente de incertezas para as empresas.
Além disso, o aumento das taxas de juros como medida de contenção da inflação encareceu o custo do crédito, tornando o financiamento mais caro para as empresas que dependem de capital de terceiros para suas operações e expansões.
No contexto do varejo, a digitalização acelerada durante a pandemia também trouxe desafios adicionais. A mudança para o comércio eletrônico exigiu investimentos significativos em tecnologia, logística e marketing digital.
Muitas empresas que já estavam alavancadas antes da pandemia tiveram que buscar mais crédito para financiar essa transformação, agravando ainda mais sua situação financeira.
Por que as varejistas se endividaram tanto?
O aumento do endividamento das empresas varejistas brasileiras pode ser atribuído a uma reunião de fatores internos e externos. Abaixo, destacamos as principais causas:
- Redução da Margem de Lucro: A combinação de aumento de custos operacionais, como aluguel, folha de pagamento e energia, com a pressão para manter preços competitivos, especialmente com a ascensão do comércio eletrônico, reduziu as margens de lucro das empresas. Isso levou muitas delas a recorrer ao endividamento para manter suas operações.
- Necessidade de Investimentos: A transformação digital do varejo exigiu investimentos pesados em tecnologia e infraestrutura. Empresas que não estavam preparadas financeiramente para essa mudança tiveram que buscar crédito para financiar esses investimentos, aumentando seu nível de endividamento.
- Aumento dos Juros: O Banco Central do Brasil, em uma tentativa de conter a inflação, aumentou a taxa Selic, que chegou a 13,75% ao ano em 2023. Isso encareceu os empréstimos e financiamentos, agravando a situação das empresas que já estavam endividadas.
- Queda no Consumo: A desaceleração da economia e a redução do poder de compra das famílias, impactadas pelo aumento da inflação e desemprego, reduziram as vendas no varejo. Empresas com estoques altos ou compromissos financeiros elevados enfrentaram dificuldades para gerar receita suficiente para cobrir seus custos e dívidas.
- Câmbio Volátil: Muitas varejistas brasileiras dependem de importações, seja de produtos acabados ou de insumos. A volatilidade cambial dos últimos anos, com o real se desvalorizando frente ao dólar, aumentou os custos dessas empresas, pressionando ainda mais suas margens e levando a um maior endividamento.
Quais foram as consequências do endividamento?
O endividamento elevado tem várias consequências para as empresas varejistas, que podem afetar não apenas a sua saúde financeira, mas também a sustentabilidade do setor como um todo.
- Risco de Insolvência: Empresas com elevado nível de endividamento correm o risco de insolvência, especialmente em um ambiente de juros altos. A incapacidade de gerar fluxo de caixa suficiente para honrar suas dívidas pode levar a pedidos de recuperação judicial ou, em casos mais extremos, à falência.
- Redução de Investimentos: Empresas endividadas tendem a reduzir seus investimentos em expansão e inovação, o que pode comprometer sua competitividade no longo prazo. Isso é particularmente preocupante no varejo, onde a inovação constante é necessária para atender às mudanças nas preferências dos consumidores.
- Impacto no Emprego: A necessidade de cortar custos para lidar com o endividamento pode levar a demissões e fechamento de lojas, impactando negativamente o emprego no setor. O varejo é um dos maiores empregadores do Brasil, e qualquer retração no setor pode ter efeitos significativos na economia como um todo.
- Reestruturação Forçada: Empresas altamente endividadas podem ser forçadas a vender ativos, fechar unidades operacionais não lucrativas ou buscar renegociação de dívidas com credores, muitas vezes em condições desfavoráveis. Isso pode levar a uma perda de valor para os acionistas e uma deterioração da marca.
O endividamento em números
Para ilustrar a gravidade da situação, é importante analisar alguns números. De acordo com dados da Serasa Experian, o índice de inadimplência entre empresas varejistas aumentou 35% no primeiro semestre de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Além disso, um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que 62% das empresas do setor estavam endividadas no final de 2023, o maior nível registrado nos últimos cinco anos.
O endividamento médio das grandes redes de varejo, como o Grupo Pão de Açúcar e Via Varejo, ultrapassou R$ 10 bilhões, com dívidas de curto prazo representando uma parcela significativa desse montante. Isso demonstra a urgência com que essas empresas precisam encontrar soluções para reestruturar suas finanças e evitar um colapso.
E agora? Como ficará a situação?
O cenário de endividamento no varejo brasileiro é desafiador, mas não sem solução. As empresas precisam buscar alternativas para reestruturar suas dívidas, seja através de renegociações com credores ou da busca por novas formas de financiamento, como a emissão de debêntures ou a captação de recursos via mercado de capitais.
Além disso, é crucial que as varejistas invistam em eficiência operacional e na adaptação ao novo perfil de consumo, cada vez mais digital e exigente. A recuperação do setor passa não apenas pela gestão do endividamento, mas também por uma reestruturação que permita a retomada do crescimento sustentável.
Em resumo, o endividamento das empresas varejistas brasileiras é um reflexo de um ambiente econômico desafiador, combinado com pressões internas do setor.
As consequências são graves, mas com uma gestão financeira adequada e estratégias bem definidas, é possível superar esse momento difícil e voltar a crescer de forma sustentável.
Por: Prof. Marcos Piellusch é diretor Vogal do IBEVAR e professor da FIA – LABFIN.PROVAR. Mestre em administração de empresas pela EAESP FGV – Fundação Getúlio Vargas e graduado em administração de empresas pela FEA-USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
Fonte: Redação FIA – LABFIN.PROVAR




