A intensificação das tensões comerciais entre os Estados Unidos e seus parceiros comerciais, incluindo o Brasil, voltou a ganhar força em 2025 com a imposição de novas tarifas e a deterioração do ambiente geopolítico.
Embora os efeitos mais imediatos sejam percebidos nos setores produtivos e nos mercados internacionais, os impactos da guerra comercial alcançam também o dia a dia dos indivíduos, afetando diretamente o poder de compra, o custo de vida, as decisões de consumo e as estratégias de investimento. Nesse contexto, o papel do planejador financeiro pessoal torna-se ainda mais relevante — e desafiador.
Volatilidade cambial e a exposição internacional das carteiras
Um dos primeiros reflexos da guerra comercial é a volatilidade cambial. Tarifas e barreiras comerciais elevam a incerteza global, provocando fuga para ativos considerados mais seguros, como o dólar, o que pressiona o real. A consequência é o encarecimento de produtos importados e, muitas vezes, de insumos utilizados pela indústria nacional. O planejador financeiro deve, portanto, revisar com o cliente a exposição cambial da carteira, ajustando o percentual de ativos dolarizados (como BDRs e ETFs internacionais) e avaliando se há necessidade de hedge para proteger parte do portfólio.
Inflação pressionada e revisão do orçamento pessoal
A desvalorização cambial e o encarecimento de produtos importados impactam diretamente os índices de preços. Com a inflação acima da meta, o Banco Central brasileiro vem mantendo a Selic elevada — atualmente em 14,25% ao ano. Esse movimento exige uma revisão completa dos orçamentos familiares, com destaque para o reforço da reserva de emergência, priorização de gastos essenciais e reavaliação de metas de médio e longo prazo. O planejador deve ajudar o cliente a recalibrar seus objetivos, ajustando valores, prazos e aportes mensais.
Juros altos e a reconfiguração da carteira de investimentos
A renda fixa volta a ser protagonista, com boas oportunidades em Tesouro Selic, CDBs de bancos médios e debêntures incentivadas. Nesse cenário, o planejador deve sugerir uma alocação mais expressiva em instrumentos pós-fixados, especialmente para perfis conservadores. Para investidores moderados e arrojados, é possível manter exposição em renda variável, mas com maior seletividade — priorizando empresas com forte geração de caixa e baixa alavancagem. Também é hora de revisar prazos e liquidez, favorecendo ativos que permitam ajustes rápidos em caso de mudanças no cenário macroeconômico.
Diversificação e ativos de proteção: o papel do ouro no portfólio
Em um ambiente de incerteza internacional, a diversificação se torna ainda mais essencial. A guerra comercial afeta diversos mercados simultaneamente e amplia os riscos sistêmicos. O planejador deve revisar a alocação estratégica de seus clientes, incluindo ativos que possam proteger o patrimônio em momentos de estresse. O ouro, por exemplo, voltou a se valorizar nos últimos meses diante do aumento da aversão ao risco global. Como ativo descorrelacionado, ele tende a manter ou ganhar valor quando outros mercados estão em queda. Fundos de ouro, ETFs lastreados em metais preciosos e contratos via plataformas acessíveis podem ser opções viáveis para compor parte da carteira, principalmente em perfis mais sofisticados. A diversificação geográfica, setorial e cambial, combinada com ativos de proteção, contribui para a resiliência do portfólio.
Custo do crédito e as decisões sobre endividamento
Com a Selic em alta, financiamentos imobiliários, de veículos ou mesmo empréstimos pessoais tornam-se mais onerosos. Nesse contexto, o planejador deve orientar o cliente sobre a relação entre endividamento e investimentos. Em muitos casos, vale mais a pena amortizar dívidas caras do que manter aplicações com retorno inferior ao custo do crédito. Além disso, a análise criteriosa de novas dívidas — com simulações comparativas e avaliação do comprometimento de renda — passa a ser essencial.
Mudança de comportamento do consumidor e reavaliação de metas
A guerra comercial ainda pressiona as cadeias de suprimentos e pode alterar o padrão de consumo das famílias. Produtos com forte componente importado tendem a ficar mais caros ou menos disponíveis. O consumidor tende a adiar compras maiores e priorizar itens de menor valor. Isso impacta o planejamento de metas de curto e médio prazo, como viagens, reformas ou aquisição de bens duráveis. O papel do planejador é ajudar o cliente a alinhar expectativas, rever prazos e considerar alternativas viáveis dentro do novo cenário.
O papel do planejador financeiro em um mundo em transformação
O cenário internacional está mais volátil, os mercados respondem de forma mais rápida às decisões políticas e econômicas, e a previsibilidade dos resultados financeiros diminui. Isso exige mais do que nunca uma atuação ativa do planejador, com monitoramento constante dos indicadores, reavaliação periódica das estratégias e comunicação clara com os clientes. Em um cenário global conturbado, proteger o patrimônio e manter o foco nos objetivos financeiros exige mais do que produtos adequados — exige estratégia, disciplina e capacidade de adaptação. O planejador financeiro é a ponte entre o cenário macroeconômico e as decisões pessoais. Seu papel, em 2025, é traduzir a complexidade do mundo em soluções práticas, seguras e ajustadas à realidade de cada cliente.
Por: Prof. Marcos Piellusch
Prof. Marcos Piellusch é diretor Vogal do IBEVAR e professor da FIA – LABFIN.PROVAR. Mestre em administração de empresas pela EAESP FGV – Fundação Getúlio Vargas e graduado em administração de empresas pela FEA-USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
Fonte: Redação FIA – LABFIN.PROVAR




