O Varejo em 2025: eficiência operacional e retomada de rentabilidade em meio aos juros altos e consumo cauteloso.
O primeiro trimestre de 2025 trouxe resultados mistos para o varejo brasileiro, refletindo o equilíbrio delicado entre uma recuperação de margens e o desafio persistente de um ambiente macroeconômico restritivo.
A inflação segue acima da meta, o crédito continua caro, e o consumidor ainda demonstra cautela nas compras, especialmente de itens de maior valor. Mesmo assim, as empresas varejistas listadas em bolsa mostraram sinais claros de melhora operacional, com avanços em rentabilidade e controle de custos, mesmo que ainda enfrentem limitações importantes no campo financeiro.
Apesar de uma retração de 11,37% na receita total em relação ao último trimestre de 2024 — o que pode ser parcialmente explicado pela sazonalidade após o pico de vendas no fim de ano —, o setor mostrou força na comparação anual: a receita nominal cresceu 11,32% frente ao mesmo trimestre do ano anterior. Quando olhamos para os últimos 12 meses encerrados em março de 2025, o aumento acumulado foi de 10,7%, superando a inflação oficial (IPCA) de 5,48% no período. Em termos reais, o varejo obteve um ganho de 4,95%, o que sinaliza não apenas recuperação, mas também crescimento consistente do faturamento em um cenário de consumo ainda pressionado.
Esse crescimento da receita não veio sozinho
As empresas conseguiram, ao longo do último ano, ganhar eficiência na gestão de custos e melhorar sua estrutura operacional. O custo dos produtos vendidos (CPV) cresceu 8,7%, abaixo do avanço da receita. Como resultado, a margem bruta média do setor subiu de 39,8% para 40,2%. Esse ganho, embora modesto, é significativo quando se considera o contexto de inflação elevada e repasses de custos limitados pela sensibilidade de preços dos consumidores.
As despesas operacionais também foram controladas, crescendo 9,4%, o que permitiu uma expansão ainda mais expressiva do EBITDA. A margem EBITDA do setor saltou de 4,16% para 5,32%, e o resultado operacional consolidado teve um crescimento superior a 40%. Esses números refletem um amadurecimento na gestão das varejistas, que buscaram ampliar eficiência, digitalizar processos, negociar melhor com fornecedores e adotar modelos mais enxutos para enfrentar os custos elevados de capital.
O reflexo dessa disciplina operacional aparece com ainda mais clareza no resultado líquido: o lucro das empresas cresceu de forma consolidada 344%. Ainda que parte desse crescimento esteja relacionada a bases comparativas fracas e eventos não recorrentes de 2024, o avanço indica que, mesmo em um cenário adverso, as empresas estão aprendendo a proteger suas margens.
Pontos de atenção
No entanto, o alívio nos resultados não elimina os pontos de atenção. O endividamento do setor aumentou de 60,7% para 63,2% e as despesas financeiras cresceram 5,9% — resultado direto do ambiente de juros elevados. A taxa Selic, atualmente em 14,75% ao ano, tem sido um dos principais obstáculos para o consumo de bens duráveis e semiduráveis, ao encarecer o crédito ao consumidor e dificultar o financiamento do capital de giro das empresas. Mesmo com o aumento de 1,6 ponto percentual no retorno sobre o capital investido (ROIC), muitas companhias ainda não conseguem superar o custo de capital, mantendo a pressão sobre os resultados de longo prazo.
A política monetária segue restritiva. O Banco Central sinalizou que os juros devem permanecer altos por um período prolongado, mesmo com a inflação mostrando desaceleração nos últimos dois meses. O aumento do IBC-Br no primeiro trimestre (+1,3%) indica que a economia está crescendo, puxada por setores como agroindústria e serviços, mas esse crescimento ainda não se traduz plenamente em consumo de massa. O consumidor médio segue cauteloso, afetado por endividamento elevado e custos fixos crescentes.
Impactos diretos e indiretos
No cenário internacional, o enfraquecimento da economia americana e as recentes tensões comerciais afetam o câmbio e a confiança global, com impactos indiretos sobre o comércio varejista brasileiro, especialmente em setores dependentes de importação. Por outro lado, a valorização do real observada em março e abril trouxe algum alívio no custo de insumos e mercadorias importadas, o que pode favorecer os próximos trimestres, caso se mantenha.
Em síntese, o primeiro trimestre de 2025 mostra um varejo em processo de ajuste: com faturamento crescendo em termos reais, margens em recuperação, e maior disciplina de custos. No entanto, a pressão das despesas financeiras e o aumento do endividamento ainda limitam o retorno sobre o capital.
A sustentabilidade dessa melhora dependerá da continuidade das reformas operacionais, do uso criterioso de alavancagem e, em especial, da sensibilidade das empresas para navegar um consumidor mais seletivo e exigente. Para os próximos meses, a atenção deve se voltar para a dinâmica da política monetária e para o comportamento da inflação — que seguirão como forças centrais na equação financeira do varejo brasileiro.
Por: Prof. Marcos Piellusch
Prof. Marcos Piellusch é diretor Vogal do IBEVAR e professor da FIA – LABFIN.PROVAR. Mestre em administração de empresas pela EAESP FGV – Fundação Getúlio Vargas e graduado em administração de empresas pela FEA-USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.
Fonte: Redação FIA – LABFIN.PROVAR




