Marcos Piellusch é professor de Finanças e coordenador de cursos no Labfin Provar da FIA

O levantamento foi feito a pedido da revista, abordando o endividamento das empresas brasileiras com ações na bolsa. Os resultados apontam um aumento do endividamento e redução na capacidade das empresas em gerar resultados suficientes para cumprir as obrigações decorrentes das dívidas.

Conforme gráfico a seguir, o índice de cobertura de juros, calculado pela relação entre o EBITDA e as despesas financeiras, revela que, em 2016, metade das empresas analisadas apresentam um indicador inferior a 1,0, ou seja, têm potencial de geração de caixa inferior às despesas financeiras. Isso mostra que essas empresas não têm capacidade de pagar os juros das dívidas com o potencial de geração de caixa da operação. Em 2012, esse percentual era de 34% e, em 2009, era de 30%. Os números mostram que a situação de endividamento dessas empresas se deteriorou de 2009 para cá, ou seja, que aumentou a proporção de empresas em situação de maior risco.

GRAFICO1*ICJ = Índice de cobertura de juros = EBITDA/Despesas financeiras exceto juros sobre capital próprio
Fonte: elaborado pelo prof. Marcos Piellusch com base em dados do site Comdinheiro.com.br

Outro indicador analisado foi o indicador Dívida Líquida/EBITDA, que mostra o peso do endividamento das empresas diante do potencial de geração de caixa pela operação. Os resultados, conforme gráfico a seguir, mostram que entre 2009 e 2016 o indicador mediano, ou seja, que separa as empresas em dois grupos subiu de 1,8 para 2,8. Isso mostra que em 2009, 50% das empresas levariam mais de1,8 anos para quitar as dívidas, caso o fizessem utilizando o caixa potencial gerado pela operação. Atualmente, esses 50% mais endividados levariam quase 3 anos para quitar as dívidas dessa maneira. É importante ressaltar que esse cálculo foi feito considerando apenas as empresas com dívida líquida positiva, ou seja, foram excluídas da análise as empresas que tem caixa suficiente para quitar as dívidas imediatamente.

Fonte: elaborado pelo prof. Marcos Piellusch com base em dados do site Comdinheiro.com.br

A situação é preocupante, já que o ritmo mais lento de atividade econômica dificulta a geração de resultados e faz com que as empresas se endividem mais para poder cumprir suas obrigações. Com isso, o risco do endividamento aumenta e os custos, representados pelas despesas financeiras, se elevam.

Nos próximos meses, ainda com a possibilidade de recuperação da atividade econômica, o endividamento ainda deve se manter entre as principais preocupações das empresas, já que a retomada do crescimento deverá afetar de forma lenta os diferentes elos nas cadeias produtivas.

A matéria completa está na edição da Revista Exame de 20/7/2016.