Juntas, as carteiras de investimentos e as posições de planos de previdência privada totalizam 51,87% de participação no total de títulos federais em 2018, sendo os principais credores do País

Os fundos de investimento sustentaram a expansão da dívida pública em 2018. Para 2019, as expectativas de redução do risco soberano ainda se ancoram na aprovação das reformas e na perspectiva de privatizações, com uma maior arrecadação pelo governo.

Segundo o relatório divulgado ontem pelo Tesouro Nacional, os fundos de investimento corresponderam por 26,9% de participação no total de títulos públicos, com R$ 1,003 trilhão (alta de 16,1% no estoque em relação a 2017). Em seguida vieram os fundos de previdência, com R$ 930,85 bilhões (24,96% de participação e aumento de 6,4% no estoque na mesma comparação).

“Há uma mudança de postura no mercado de investimentos pelas expectativas macroeconômicas. Além disso, o possível andamento das reformas também dá a perspectiva de baixos juros no longo prazo”, explica o economista da Órama, Alexandre Espírito Santo.

As projeções para a taxa básica de juros (Selic) de 2019 do relatório Focus, do Banco Central (BC), têm demonstrado quedas constantes. A estimativa, que chegara a 8% em outubro último, está atualmente em 7%.
Para o professor de finanças do Labfin da Fundação Instituto de Administração (FIA) Marcos Piellusch, porém, a representatividade dos fundos nos títulos públicos pode ser explicada pelo maior volume desses ativos e pela sequente busca por renda fixa para diluição de riscos.

“Essa movimentação pode ser natural, com gestores procurando diminuir os riscos da carteira. O que podemos ter de diferente neste ano é a representatividade das instituições financeiras (bancos) nesses papéis que, por conta do cenário mais propício ao crédito, devem diminuir suas aplicações”, diz o professor.

Essas instituições foram detentoras de 22,74% dos títulos públicos, com R$ 848,1 bilhões em 2018. O estoque é 10,6% superior ao registrado no ano anterior (R$ 766,96 bilhões).
“Com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] mais fora da jogada, poderemos ter um avanço em debêntures, por exemplo. Mas precisamos de uma atividade econômica mais aquecida e da aprovação dos planos do governo”, complementa o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira.

Cenário macroeconômico Riscos dos estados

Já quanto as perspectivas macroeconômicas, a professora de economia do Mackenzie Ana Lúcia Pinto reitera que mesmo frente aos riscos sistemáticos – aqueles que não podem ser previstos –, a sinalização é “bastante positiva”.

“O BC deve segurar os juros para recuperar a economia e, se o governo insistir na aprovação das reformas ainda em 2019, poderemos oferecer maior segurança aos investidores de que a dívida é sustentável”, avalia a especialista, mas destaca que é preciso ser “realista” quanto as metas.

“Essa confiança, porém, não deve vir nos próximos seis meses, mas sim a partir do segundo semestre, quando o governo já estiver encaminhado. Da mesma forma, também não podemos esperar um superávit neste ano. O máximo que teremos é uma diminuição na necessidade de financiamento”, analisou Ana Lúcia.
“Se o governo conseguir encaixar as privatizações, por exemplo, e reduzir a emissão, a tendência é positiva até mesmo para atrair investimento estrangeiro em infraestrutura, aquisições e vinda de novas empresas”, conclui o coordenador de cursos da Faculdade Fipecafi, Estevão Garcia.
Ontem, o Tesouro Nacional também anunciou que as recentes renegociações e outras medidas de suspensão de pagamentos obtidas por estados e municípios já renderam um impacto de R$ 166,7 bilhões na dívida pública entre 2016 e 2022. Só entre 2016 e 2018, o impacto foi de R$ 71 bilhões.O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, alertou para o alto nível de endividamento do Brasil e para o baixo prazo médio da dívida, de 4,1 anos. Mansueto ainda chamou atenção para a necessidade líquida de financiamento do País neste ano, estimada em R$ 779,7 bilhões e reiterou que há a necessidade de aprovar um crédito suplementar de R$ 258,2 bilhões para bancar despesas correntes. A dívida bruta cresceu de 74,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 para 77,3% em 2018.